Eu corria atrás do gato em passos descompassados, e quase o perdia de vista algumas esquinas. Corri por vários quarteirões atrás dele. Vou ser bem sincera, eu odeio correr. Não é nem pelo esforço físico, mas meu fôlego é uma droga. Não consigo correr por mais de um minuto. Se o faço por um minuto e meio, já começo a ficar muito ofegante, e com falta de ar até. Mas, voltando ao gato, maldito gato!, eu ainda corria atrás dele quando esbarrei em uma pessoa e caí no chão, de costas. Ah, aquilo arruinou minha visão. Meus óculos caíram, e eu fiquei sem ver um palmo a minha frente.
- Mas o que... - Parei imediatamente de falar. Um vulto vestido de negro se estendia à minha frente. Ele mantinha a mão erguida na minha direção. Era um rapaz, uns 3 anos mais velho que eu, de cabelos negros até o ombro, e olhos perturbadoramente dourados. Vocês devem estar se perguntando como eu vi a cor dos olhos dele de longe se não conseguia enxergar. Bem. Tem detalhes que você não consegue deixar de reparar... Porque brilham. Sim, os olhos dele brilhavam. Como faróis.
- Desculpe, eu não a vi. Você está bem? - Perguntou o rapaz. Segurei na mão dele, e ele me ajudou a levantar. Ele era um pouco estranho... reparei nisso quando o ouvi falar, mas não soube dizer o que era tão estranho nele.
- S-sim... É... Meus óculos. - Falei de repente, tentando achar o gato, tomando ciência de que o perdera. Ele se abaixou e pegou meus óculos para mim, também. Como ele é gentil, pensei. Difícil encontrar gente assim hoje em dia. - Obrigada.
- O que uma garotinha como você está fazendo andando por uma rua deserta à essa hora? - Ele perguntou com um ar brincalhão. Não tinha reparado nisso, mas ele fazia o tipo bad boy. Me arrepiei toda, pensando no que meus pais falariam sobre isso.
- Garotinha? Eu não sou nenhuma garotinha. Tenho a sua idade.
- Tem 23 anos? - Fiquei pasma. 23?! Ele tem 23 anos?! Parece ter 17! Mordi o lábio inferior suavemente. Uma baita encrenca... Esperei que meus pais não chegassem a me ver com ele. Contrariada, respondi.
- Não. Tenho 14... Quase 15. Faço daqui a 4 meses. - Ele riu. Era uma risada rouca, vagamente felina. De repente o imaginei como uma pantera. Mas logo varri o pensamento para longe da mente quando me toquei de um pequeno detalhe. Não acredito! Estou perdida!
- Como perdida? - Ele perguntou, meio confuso.
- Err... Eu falei isso alto? - Senti minha face enrubescer.
- Falou.
- Eu não faço ideia de onde estou. Eu vim aqui seguindo um ga... Um ga... - Travei. Como iria dizer a um homem de 23 anos que eu estava "seguindo um gato que piscou para mim, e me chamou com a cauda" ? - Um garoto esquisito. Ele tava olhando a minha casa, e quando foi embora eu segui ele. - Menti descaradamente.
- Certo... Eu ofereceria ajuda pra te levar pra casa. Mas não sou daqui, portanto não conheço. - Ele riu novamente, com aquele ar brincalhão novamente. - Se quiser posso te levar pra minha casa. Amanhã tentamos ver onde fica a sua no GPS que tenho em casa. - GPS? Agora ele tem um GPS em casa! Não, nunca. Eu nunca vou aceitar ir pra casa de um estranho desse jeito. Tudo bem que ele é gentil, mas... poxa! Ele tem 23 anos! Pode querer me raptar. Ou me estuprar. Ou me estripar. Ou me matar. Ou me roubar... - Ah... desculpe. Acho que não vai querer ir para a casa de um estranho assim. Me esqueci que as pessoas daqui são... diferentes. - Ele pronunciou aquela palavra de um jeito estranho. Senti meu coração palpitar ao reparar aquilo que eu tinha achado estranho nele. Ele é gentil demais. Claro. Porque não veio daqui. Quando reparei nisso, revi nossa conversa mentalmente, e reparei no leve sotaque que ele tinha.
- Desculpe a pergunta. Mas de onde você é?
- Ah... Eu sou da Rússia. Vivi alguns anos lá depois que nasci, mas tive de vir pra cá por causa da Guerra. A Guerra Fria. Ouviu falar?
- Sim. É a guerra que mais gostei de estudar. Tem bastante coisa, não é? Superpotências...
- Nem me lembre. Ainda bem que eu era só uma criança na época.
- P-perdão.
- Não, não... imagina. Eu quem devo pedir perdão. Não devia ter contado isso, desculpe.
- Imagina. Mas, tem uma coisa que eu não sei. Qual o seu nome?
- Apenas me chame de Vladelets Koshki.
- Vladelets... Koshki? Puxa. Que difícil. O que significa?
- Dono dos gatos.
Gatos? Gatos?! O gato! Eu havia me esquecido do gato! Como pude me esquecer logo do que me tirara de casa? Claro, aquela pessoa esquisita na minha frente me tirou a atenção. Como pude me esquecer do mais importante? Mas, bem, eu sou assim... Acabo esquecendo as coisas importantes quando outras mais urgentes aparecem.
- Mas e o seu nome? Qual é? - Vladelets perguntou calmamente.
- M-meu nome? - Gaguejei, nervosa.
- Perdoe-me, mas com quem mais eu estaria falando?
- Meu nome... é Alice. Alice Schatten. - Menti, falando o primeiro nome que me veio na cabeça. É uma loooonga história. Que não tenho tempo para contar agora.
- Bonito nome. Mas, então... Você realmente não virá me acompanhar até minha casa? Eu adoraria recebê-la em meus aposentos.
Senti meu rosto corar. Droga. Ele era gentil mesmo. "Meus aposentos". Quem fala assim hoje em dia? Me peguei pensando. Mas sacudi a cabeça, e suspirei.
- Onde você mora, Vladelets?
- Eu moro em Copacabana. - Mais uma surpresa. Arregalei os olhos castanhos-escuros, e ofeguei. Copacabana?! Ainda por cima bairro de rico! - Algum problema, senhorita Alice?
- N-não, nenhum! Eu... Vou pensar. Mas... Melhor que me leve até lá. Pelo menos, se eu não for ficar, gostaria de me aquecer.
Ele sorriu, e estendeu o braço. Hã? Hããããããã? Vou contar um segredinho. Eu sou péssima com garotos. Principalmente os altos, e bonitos. Não gosto muito deles. Tá, gosto dos bonitos. Mas não sei muito bem lidar com eles. Só com o meu namorado, claro. Mas fico super sem-graça quando os garotos bonitos vêm falar comigo. E agora ele estendia o braço pra mim. Droga... Segurei no braço dele, timidamente.
- Oh. Você está mesmo gelada. Quer meu sobretudo?
- Imagina. Posso aguentar o frio. Afinal, prefiro frio do que calor.
- Puxa. Você é uma garotinha cheia de surpresas. - Como é? Eu é que sou cheia de surpresas?, pensei. Mas só pensei. Fiquei em silêncio, e o acompanhei.
- Você dirige? - Finalmente perguntei, depois de um tempo.
- Sim. Eu tenho um Mustang.
- Uau! Um Mustang?! Isso é bem... - Ele me olhou com um ar ameaçador. - ...original. - Completei apressadamente. Ele deu uma risada rouca, mostrando que aquilo era uma brincadeira. Brincadeira de mau gosto. Hunf.
- Eu sei que é velho. Mas é meu companheiro. Está comigo desde quando meus pais me deram. Há, mais ou menos 5 anos.
- Oh. Entendo. Como este meu anel. - Passei o dedo indicador sobre meu anel na mão esquerda. Era uma espécie de "presente de formatura" do quarto pro quinto ano, que eu ganhara do meu pai anos atrás. Era um anel simples, com uma pedrinha, e feito de aço. Mas eu jamais tirei aquele anel. Até lembro o preço dele. Sorri suavemente. Meu pai é tão bom. Espero que meu marido também seja.
- Hm. É, se importaria de ir comigo, no banco do carona? Não quero que pensem que sou motorista particular.
- Claro. - Respondi, e depois ficamos em silêncio, até chegarmos ao carro. Era um Mustang 1963 preto, com paralamas prateados e faróis redondos. Era um belo carro. Parecia um daqueles carros de antigamente. Talvez porque fosse.
Fui ao lado do carona junto com ele, e ele abriu a porta para mim. Agradeci e entrei, colocando o cinto na hora. Talvez fosse a decisão errada, me deixaria vulnerável e com poucas chances de escapar caso algo acontecesse - prefiro não comentar sobre - e me apertava. Mas fazer o quê. Segurança em primeiro lugar. E, não sei por que, mas eu confiava nele. Como confiei em seguir o gato.
Vladelets dirigiu por mais ou menos meia hora até que eu pudesse ver a orla da praia. Era uma visão noturna bonita. Bom, na verdade, quase não se podia ver nada, mas os prédios de frente para o calçadão, os postes iluminando os mosaicos da calçada e a quantidade de carros me deixava maravilhada. Sempre fui apaixonada por fotos. Desejei ter uma câmera comigo.
- Poderíamos tirar uma foto disso. - Falei em voz baixa, mas ele ouviu, porque pegou uma câmera profissional no porta-luva quando paramos no sinal.
- É sua. Use-a bem. - Eu não podia acreditar. Acabei de ganhar uma câmera fotográfica profissional de um cara que acabei de conhecer. Meus pais, definitivamente, vão me matar. Acho que o Freddy Krueger vai ser fichinha perto das feras que meus pais vão virar. Comecei a praguejar mentalmente, e suspirei. Ergui a câmera e tirei uma foto da rua em frente. Essa vai pra caixinha da lembrança, pensei. Sorri suavemente. Ele voltou a dirigir quando o sinal abriu, e logo entrou em uma das ruas. Dirigiu por várias ruelas até que chegássemos a um prédio de luxo, longe da civilização barulhenta. Ele entrou no estacionamento do prédio, e desligou o carro. Olhou para mim, depois de um tempo. - Não vai descer? - Perguntou sorrindo.
- S-sim! - Respondi, e saltei imediatamente do carro. Abracei a câmera e assoprei. Estava mesmo frio. Mais do que o normal. Saía vapor da minha respiração. Comecei a rir. Eu realmente adorava aquilo, e pela primeira vez agradeci ao gato por ter me levado para fora de casa. Eu não veria aquilo, se tivesse ficado. - Que horas são? - Perguntei, calmamente.
- Oito e meia. Ainda dá tempo de comprarmos roupas para você. Quer ir andando comigo?
- Ei, ei. Eu ainda não disse que vou dormir na sua casa.
Ele sorriu daquele jeito bad boy que me deixava arrepiada de medo.
- Eu sei que você vai. Se não fosse, não teria vindo até aqui.
Droga!, pensei. Eu sou muito estúpida. Não tinha pensado nisso, mas agora que pensei, fazia todo o sentido. Talvez meu inconsciente já soubesse que era melhor aceitar ajuda do que passar a noite na rua sem comida, água ou aquecimento. E sem boa companhia, acrescento.
- Que seja. Mas não quero coisas caras. - Exigi, fazendo biquinho. Eu fazia essas coisas quando ficava irritada ou quando era contrariada. Agia como criança. Odeio isso em mim. Subitamente pensei no meu namorado. - Também não quero coisas curtas.
- Que pena. Eu adoraria ver você em uma sainha de couro e blusa rasgada. - Ele pareceu lamentar sinceramente, mas depois deu uma risada rouca que me fez gelar a espinha. Ele era ótimo ator.
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